O buraco tem fundo?

Constantemente minha vontade de ir morar na Dinamarca aflora; normalmente quando acontece alguma coisa por aqui que demonstra o quão sem futuro nosso país realmente é. Houve um tempo em que eu tentava buscar esperança, que eu tentava pensar positivo; não é mais o caso. Diante de tantos problemas endêmicos, o maior não é a corrupação desenfreada mas sim o buraco cultural em que estamos (ou somos?). Um país que se vangloria do jeitinho brasileiro para contornar e tirar proveito de qualquer situação realmente precisaria repensar-se como uma nação.

As duas matérias abaixo foram retiradas da Folha.

Clientes especiais
Maria Rita Kehl

Antes de mais nada, como já se notou, existe o viés social. De um lado existem “jovens” que ocasionalmente cometem atos delinqüentes. É o caso de Júlio, Leonardo e seus colegas, espancadores da Barra /. Inspiram-nos cuidado semelhante ao que dispensamos aos nossos filhos. Tentamos compreender: o que aconteceu? (Psicólogos são chamados a justificar.)

E existem os outros, os que já são bandidos antes de chegar (quando chegam) diante do juiz. A execução sumária confirma, a posteriori, o veredito que a imprensa divulga sem questionar: “A polícia matou 18 “suspeitos” em confrontos com supostos “bandidos’”… Ninguém persegue o resultado das investigações sobre as tantas chacinas que caem no esquecimento.
O que distingue uns dos outros é o número do CEP: na Barra, nos Jardins /, no Plano Piloto / vivem os jovens.

Os outros, adultos anônimos desde os 14, vêm de bairros que não figuram no mapa: “Periferia é periferia em qualquer lugar”. Qualquer delegado de bom senso percebe na hora a diferença. Se a cor da pele confirmar o veredito, melhor. A sociedade, representada pelo dr. Ludovico Ramalho, pai de Rubens Arruda, se tranqüiliza: as travessuras dos “jovens”, adultos infantilizados das classes A e B, não ameaçam a segurança da gente de bem.

Espancaram uma doméstica, mas pensavam que fosse prostituta. Ah, bom.
Nos bairros onde vivem os jovens não há solidariedade com os chacinados das favelas, com os executados a esmo em Queimados /, com os meninos abatidos na praça do Jaraguá, em SP /. Os movimentos “pela paz” nunca se manifestam por eles.

Ninguém de fora
Mas, quanto mais o Brasil maltrata seus pobres, quanto mais a polícia sai impune dos excessos cometidos contra os anônimos cujas famílias não protestam por temor de represálias, quanto mais o país confia na lógica do “nós cá, eles lá”, mais o gozo da violência se dissemina entre todas as classes sociais.

Para pacificar o país, seria preciso redesenhar o mapa do respeito e da civilidade de modo a não deixar ninguém de fora. Uma sociedade que assiste sem se chocar, ou sem se mobilizar, ao extermínio dos pobres -bandidos ou não- está autorizando o uso da violência como modo de resolução de conflitos, à margem da lei.

Tomemos o ato de delinqüência cometido pelos meninos “de família” da Barra, no Rio. Que a culpa seja dos pais, vá lá. As declarações do pai de Rubens Arruda são reveladoras. Não que ele não transmita valores a seu filho.

Mas serão valores relacionados à vida pública? Não terá o dr. Ludovico educado seu filho para “levar vantagem em tudo”? Esse pai não admite que o filho seja punido pelo crime que cometeu.
Há aqueles que não admitem que a escola reprove o jovem que tirou notas baixas, os que ameaçam o síndico do condomínio que mandou baixar o som depois das 22h etc.

Olham o mundo pela ótica dos direitos do consumidor: se eu pago, eu compro. Entendem seus direitos (mas nunca seus deveres) pela lógica da vida privada, como fizeram as elites portuguesas desde a colonização.

Quem disse que os jovens não lhes obedecem? Obedecem direitinho. Param em fila dupla, jogam lixo nas ruas, humilham os empregados -igualzinho a seus pais.
Vez por outra, quando os pais precisam impor alguma interdição, já não se sentem capazes.
O que nos coloca a pergunta: que valores, que representações, no imaginário social, sustentam o exercício necessário da autoridade paterna? Em nome de que um pai ou uma mãe, hoje, se sentem autorizados a coibir ou mesmo punir seus filhos?

A autoridade não é um atributo individual das figuras paternas. A autoridade dos pais -e da escola, que também anda em apuros (quem viu “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim?) -deriva de uma lei simbólica que interdita os excessos de gozo. Uma lei que deve valer para todos. O pai que “tem moral” com seus filhos é aquele que também se submete à mesma lei, traduzida em regras de civilidade, de respeito e da chamada boa educação.

Cliente especial
Mas em nome de que, no imaginário social, a lei simbólica se transmite? Já não falamos em “Deus, pátria e família”, significantes desmoralizados em nome dos quais muitos abusos foram cometidos, sobretudo no período de 1964 a 1980.

No lugar deles, no entanto, que outros valores ligados à vida pública foram inventados pela sociedade brasileira? Em nome de que um pai que diz “não pode” responde à inevitável pergunta: “Não posso por quê”?

Ocorre que a palavra de ordem que organiza nossa sociedade dita de consumo (onde todos são chamados, mas poucos os escolhidos) é: você pode. Você merece. Não há limites pra você, cliente especial.

Que o apelo ao narcisismo mais infantil vise a mobilizar apenas a vontade de comprar objetos não impede que narcisismo e infantilidade governem a atitude de cada um diante de seus semelhantes -principalmente quando o tal semelhante faz obstáculo ao imperativo do gozo.
O que queriam os rapazes que espancaram Sirlei Dias de Carvalho Pinto? Um celular usado? Um trocado para comprar mais um papel? Descontar a insegurança sexual?

“No limits”, diz um anúncio de tênis. Ou de cigarro, tanto faz. E os meninos obedecem. No fundo, são rapazes muito obedientes. Se a ordem é passar dos limites, pode contar com eles.

Cultura da explicação
Marcelo Coelho

Fico tentando entender o que leva um grupo de delinqüentes de classe média a espancar, tarde da noite, uma mulher parada num ponto de ônibus, como aconteceu há poucos dias no Rio de Janeiro. Parece que faziam isso habitualmente; funcionários de um posto de gasolina contam tê-los visto mais de uma vez comemorando o sucesso de suas expedições.
Fala-se em “intolerância”: organizavam-se para atacar prostitutas. Só que desta vez atingiram uma empregada doméstica. Se o caso fosse “apenas” isso, uma mania de perseguir prostitutas, haveria sem dúvida uma linha de interpretação possível. Acho-a insuficiente, mas vamos ver até onde vai.

Tudo poderia ser entendido como uma forma doentia de repressão sexual. Imagino que, há um século, certos assassinos famosos de prostitutas buscassem matar quem expusesse em público um desejo sexual de que tinham vergonha e que não conseguiam satisfazer.

Ainda que evidentemente genérica, essa interpretação teria algum sentido em épocas remotas. Não tenho certeza se atualmente se vive uma era de total liberdade sexual entre os jovens, mas em todo caso a repressão não é, por certo, o forte do nosso sistema educativo.

Mais provável, então, que a “intolerância” seja de outra natureza. O que a classe média brasileira não mais suporta -haja vista as iniciativas de controlar a mendicância em São Paulo- é o contato com gente pobre. Você mora num condomínio bem-cuidado, freqüenta um colégio particular, passeia num shopping center, e tudo vai às mil maravilhas.

Só que existe a rua, o trânsito, o sinal vermelho, e quando você olha para o lado lá estão eles. À noite, parada na rua, uma mulher pode ser prostituta, mas pode estar apenas esperando um ônibus. Pouco importa: não é “tudo a mesma coisa”? Havia uma comunidade no orkut (devem ser contadas às centenas, mas não tenho estômago para procurar) chamada “Odeio pobre”. O idealizador dessa pequena organização dava seus motivos: eles falam alto, o carro deles, no fim de semana, encrenca na estrada e atrapalha a nossa vida, eles se vestem mal, usam aqueles guarda-chuvas que não funcionam, não entendem o que a gente diz…

Uma vez que não há perspectivas de ver o Brasil tornar-se um “país de primeiro mundo” pelos mecanismos normais do desenvolvimento econômico, começam a surgir sinais de fantasia genocida. A “limpeza” não se limitaria à remoção de favelas ou de bancos habitáveis nas praças públicas, mas precisa recorrer a medidas radicais, como incendiar mendigos ou, no mínimo, espancar quem não tiver a roupa certa, a cor certa, o carro certo.

“Intolerância”? Não acho que seja este o termo. A questão não se resume, evidentemente, a “tolerar” os pobres (embora seja isso o que muita gente acaba defendendo). Já é sintoma de nossa patologia social falar no “respeito ao diferente” quando se pensa em proteger quem faz parte da maioria da população. Bem, mas eles pensavam que estavam atacando prostitutas. O motivo dessa escolha, entretanto, é certamente mais odioso do que o da pura “intolerância” com relação à atividade dessas mulheres. É que a prostituta não vai dar queixa na polícia.

Seja como for, o ódio aos pobres não leva tanta gente assim a cometer a barbaridade que se viu na Barra da Tijuca. Será que esses “meninos”, esses “garotos”, esses “adolescentes” (quanta ilusão nessas palavras!) tiveram uma educação excessivamente liberal? Acostumaram-se à “cultura da impunidade” que predomina no país? Pode ser. Mas isso não explica tudo. Poderiam drogar-se sozinhos, dedicar-se a pichações, depredar caixas eletrônicos na calada da noite. Só que seria pouco. Tentando achar uma explicação para o caso, concluo que o erro está na minha própria pergunta. Fala-se muito na “cultura da impunidade”, mas existe também uma “cultura da explicação”. Para cada absurdo que acontece, há sempre um repórter pedindo explicações a algum especialista.

Entrevistar os próprios delinqüentes não daria certo tampouco: ouviríamos aquele tipo de adolescentês desarticulado que se encontra em toda parte. Foi pra zoar, mó legal, foi só de sarro, sei lá, tá ligado? De tanto serem “explicados”, de tanto que as pessoas se esforçam por entendê-los, é que nossos “jovens” acabam fazendo essas e outras proezas. Querem ser inexplicáveis; querem ser irracionais. Trata-se de um desejo bastante comum, aliás, na espécie humana.

Este artigo foi postado 17 meses e 10 semanas atrás, no dia 04/07/2007 às 8:43 em Brasil. Você pode deixar um comentário ou fazer um trackback de seu site.

4 comentários para “O buraco tem fundo?”

  1. Marquetto disse há 17 meses e 10 semanas:

    uma luz aparece para iluminar a escuridão cultural em que estamos:

    http://rafaelmarquetto.blogspot.com/

    Idéias para a glória da espécie humana!

  2. Brian Barbutti disse há 17 meses e 10 semanas:

    porra, não acredito.
    excelente.

  3. Marquetto disse há 17 meses e 10 semanas:

    Os próximos post serão sobre papercraft, arco e café de amendoin e cerveja caseira

  4. Luis Fernando Mizutani disse há 17 meses e 8 semanas:

    É…realmente estamos num vácuo cultural. Alias acredito que é um fenômeno mundial. Todas as crises sociais, econômicas, ambientais na verdade são só efeitos da crise de percepção que vivemos.
    Acho que a saída é a educação, mas o nosso presidente, “se vangloria” de só ter segundo grau, e nós, temos que ter inglês, diploma, pós-graduação e etc para conseguir um emprego.

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